A relação diplomática entre Brasil e Israel vive mais um capítulo de escalada verbal e distanciamento prático: com a saída do embaixador israelense Daniel Zonshine, Netanyahu parece disposto a manter apenas um encarregado de negócios em Brasília — gesto que sozinho diz muito sobre o rumo frio e tenso das relações. Enquanto isso, o governo brasileiro, conduzido por Lula e por vozes do PT, segue denunciando a carnificina em Gaza e recusando-se a ser tratado com paternalismo por governos reacionários. A disputa não é só entre embaixadas; é entre projetos civilizatórios — e o Brasil, ao que tudo indica, decidiu não se curvar.
Defesa por acordo
Desde outubro de 2023, quando a guerra entre Israel e o Hamas intensificou a tragédia em Gaza, o governo brasileiro passou a atuar com clareza: exigir um cessar-fogo permanente e a entrada ininterrupta de ajuda humanitária. Em notas públicas e discursos, Brasília não tem titubeado ao caracterizar as ações israelo‑netanyahuistas como uma verdadeira carnificina — e, para muitos, um crime que exige condenação. O governo brasileiro não tem dúvida: o que acontece em Gaza é um genocídio.
A fagulha diplomática que levou ao atual esvaziamento da representação embaixadora começou no ano passado, quando Lula comparou o massacre em Gaza às atrocidades do regime nazista. A reação de Netanyahu e de sua cúpula foi óbvia: transformaram gestos diplomáticos em publicidades de constrangimento. “Israel Katz chamou o presidente Lula de ‘antissemita apoiador do Hamas'”, disse o próprio ministro da Defesa de Israel, numa publicação em rede social que escancarou a truculência da direita israelense. A resposta brasileira não foi de silenciamento: Frederico Meyer, então embaixador em Tel Aviv, foi chamado de volta a Brasília e a embaixada foi mantida sob encarregado de negócios — sinal claro de descontentamento.
O episódio que se seguiu — a indicação, por Israel, de Gali Dagan para a vaga e a subsequente omissão do Itamaraty ao não dar aval — mostra que o Brasil aprendeu a política da firmeza. “Não houve um veto formal, mas o Itamaraty deixou o pedido sem resposta”, disse Celso Amorim à TV Globo. Traduzindo: não reconheceremos, por mera cortesia, nomes apresentados por um governo que pratica humilhação diplomática e que insiste em justificar violência como política de Estado.
Enquanto isso, diplomatas ouvidos pela imprensa avaliam que o ataque pessoal de Katz ultrapassou limites. “O ministro de Netanyahu passou do tom em relação a Lula e ao Brasil”, disseram diplomatas brasileiros. Não é apenas um problema de etiqueta internacional: é uma tentativa de impor narrativas que naturalizam a violência, enquanto punem quem denuncia.
A posição do governo Lula, longe de ser mera retórica, tem consequências práticas. Ao recusar aceitar nomes e ao manter a embaixada em nível reduzido, o Brasil mostra que sua soberania e sua diplomacia não serão subservientes aos desmandos de governos aliados à extrema direita mundial. E há também um recado interno: enquanto a direita bolsonarista cultiva admiração por regimes autoritários e bilionários que financiam guerras e privatizações, o campo progressista brasileiro remobiliza Estado e solidariedade internacional como instrumentos contra o saque.
Lula representa uma posição de nação soberana e anti‑imperialista — pronto para enfrentar ameaças e insultos. O gesto brasileiro não apaga obrigações humanitárias nem as responsabilidades de diálogo, mas deixa claro que o país não aceita ser reduzido a capítulo de propaganda de governos que praticam limpeza social.
Num mundo onde as reacionarizações políticas se alinham entre si, a diplomacia brasileira escolheu o lado da vida e da solidariedade com os povos oprimidos. Se Israel Katz e sua turma preferem a provocação, o Brasil responde com firmeza diplomática e com a legitimidade política de quem está ao lado das vítimas. A disputa seguirá, mas a razão do lado de cá é clara: não há espaço para conivência com genocídios, nem para bajulação a governos que prosperam com a dor alheia.