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Quatro anos após denúncias, Prevent Senior segue impune enquanto médicos denunciam são perseguidos pela Justiça

Quatro anos após as primeiras denúncias, o caso Prevent Senior segue como exemplo clássico de impunidade e manipulação: famílias destruídas, promotores cheios de provas e um aparato institucional que parece mais preocupado em arrastar prazos do que em punir responsáveis. Quatro anos depois, ninguém foi responsabilizado. Enquanto isso, os médicos que tiveram coragem de denunciar enfrentam processos e ameaças, muitos pagando com suas carreiras por terem escolhido a verdade em vez do lucro.

Cronologia do caso

As primeiras reportagens, em 2021, deixaram claro o tamanho do escândalo: prescrição em massa do chamado “Kit Covid” (cloroquina, ivermectina, azitromicina), testes de remédios sem consentimento, ocultação de mortes e coação a profissionais para que repetissem um roteiro criminoso. A CPI da Covid do Senado concluiu que a Prevent Senior atuou em associação com o chamado “Gabinete Paralelo” do Ministério da Saúde do governo Jair Bolsonaro. Em setembro de 2021, a operadora assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) admitindo que seu estudo sobre cloroquina não tinha valor científico — como se um termo escrito pudesse reparar vidas.

“Nossa vida parou, a nossa família foi destruída, perdemos a nossa matriarca, peça-chave da família” — Kátia Castilho, cuja mãe morreu na Prevent Senior. A dor das famílias é contínua: prontuários adulterados, remédios contraindicados e até uso de flutamida em pacientes com insuficiência hepática. Peritos do Imesc e do Hospital das Clínicas concluíram que, em sete casos analisados, a medicação indevida e outras condutas contribuíram para a morte — o que levou o MP-SP a oferecer denúncia por homicídio culposo contra dirigentes da Prevent em junho de 2024. A Promotoria também propôs a criação do crime de “cobaia”, porque, pasmem, a legislação brasileira não previa criminalizar quem transforma pacientes em objeto de faturamento.

Desdobramentos e impunidade

Apesar das denúncias, o processo criminal não avançou: réus não localizados, notificações que não saem, prazos que correm. O silêncio institucional vale mais do que a vida de milhares. A Procuradoria-Geral da República, sob Augusto Aras, recusou abrir investigação na primeira fase — um silêncio que cheira a proteção política. Enquanto isso, na esfera trabalhista e cível, o MPF e o MP-SP moveram ação pedindo R$ 940 milhões por dano moral coletivo, denunciando assédio moral, pressão para prescrever remédios ineficazes e até incentivo para que profissionais doentes trabalhassem infectados.

Os denunciantes não saem ilesos. Walter Correa de Souza Neto, um dos médicos que depuseram na CPI, hoje responde a processo no Cremesp por determinação do CFM, acusado de vazar um prontuário que, segundo a própria sindicância, não tem autoria comprovada. “A indignação ainda me consome. É uma revolta amarga” — Walter Correa de Souza Neto. A Prevent chegou a mover ação por danos morais contra ele, pedindo R$ 300 mil, mas desistiu. Já o CFM evita falar sobre processos em curso, alegando que se manifestar poderia prejudicar apurações — convenientes silêncios que empurram a verdade para debaixo do tapete.

Relatos como o de Andrea Rotta, viúva de Fábio Senas, mostram o custo humano: “Desejo que a justiça seja feita e que, parte dessa história, tenha um desfecho libertador para nós, familiares das vítimas.” As promotorias ouviram dezenas de testemunhas, analisaram milhares de documentos e encontraram provas suficientes para responsabilizar, mas o ritmo é letárgico — e a sensação de que interesses privados e políticos valem mais do que vidas continua.

A lição política é clara: casos como esse não existem fora do contexto do bolsonarismo e de uma direita mercantil que tratou a saúde pública como terreno de negócios. É urgente recuperar e fortalecer o sistema público de saúde, proteger denunciantes e punir os cúmplices — inclusive políticos e instituições que guardaram silêncio. A luta por justiça aqui é também luta por um projeto popular que não permita que planos de saúde privados ditem vidas e mortes no país. O país não vai aceitar que famílias paguem com seus mortos pela ganância de poucos; é hora de empurrar a impunidade para fora do palco e reconstruir um SUS forte, público e soberano.

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