O Departamento de Estado dos Estados Unidos resolveu dar mais um show de autoritarismo diplomático: revogou vistos de brasileiros ligados ao programa Mais Médicos, numa medida anunciada por Marco Rubio que chega como retaliação a uma cooperação que salvou vidas nas periferias do país. A ofensiva atinge nomes como Mozart Júlio Tabosa Sales, secretário de Atenção Especializada à Saúde, e Alberto Kleiman, ex-funcionário do governo, e expõe, mais uma vez, o caráter beligerante da política externa estadunidense contra iniciativas de solidariedade internacional.
O episódio e as acusações
O governo de Washington alega que o Mais Médicos foi um “esquema coercitivo” do regime cubano que explorou médicos e até “privou” cubanos de cuidados essenciais — acusações utilizadas para justificar a revogação de vistos e restrições. “O Departamento de Estado está tomando medidas para revogar vistos e impor restrições de visto a vários funcionários do governo brasileiro e ex-funcionários da OPAS, cúmplices do esquema de exportação de trabalho forçado do regime cubano,” disse Marco Rubio ao anunciar as medidas. Ainda segundo os americanos, intermediários teriam “driblado” requisitos constitucionais brasileiros e pago diretamente ao regime de Havana, enriquecendo-o em detrimento dos profissionais.
A retórica é a mesma usada por Pompeo em 2020 e faz parte de uma escalada: além dessa investida, os EUA já aplicaram tarifas a produtos brasileiros, suspenderam vistos de ministros do STF e usaram a lei Magnitsky contra autoridades nacionais. O alvo agora é um programa que, em sua versão original (2013–2018), levou médicos a onde o mercado não chegava.
“O secretário de Estado dos EUA ameaça restrições de vistos contra governos que contam com programas legítimos de cooperação médica com Cuba. Isso mostra imposição e adesão à força como nova doutrina de política exterior a esse governo,” afirmou Bruno Rodríguez, ministro das Relações Exteriores de Cuba, classificando a medida como imposição externa. E garantiu: “Cuba continuará prestando serviços (a países com os quais ainda presta colaboração).”
O que foi e o que é o Mais Médicos
Criado em 2013 pelo governo Dilma, o programa supriu uma grave carência do SUS em áreas periféricas e interioranas, com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) atuando como ponte com profissionais estrangeiros — muitos vindos de Cuba. Em 2018, a participação cubana terminou por decisão de Havana após a eleição de Jair Bolsonaro; depois, o programa foi relançado em 2023 e, em 2025, já contava com cerca de 24,7 mil médicos atuando em 4,2 mil municípios.
A controvérsia sobre condições de trabalho dos médicos cubanos foi explorada politicamente pelos EUA e pela direita brasileira. Enquanto isso, a realidade do Brasil continua sendo a mesma: falta de médicos em locais abandonados pelo mercado e pelos governos entreguistas.
Os Estados Unidos parecem achar que podem sancionar solidariedade e punir quem organiza políticas públicas em benefício do povo. Essa intimidação não passará sem resposta política e moral: é um ataque à nossa soberania e ao direito à saúde pública.
Reações políticas foram previsíveis: o deputado Eduardo Bolsonaro comemorou a medida como um recado a “ministros e burocratas”. “A medida é também um recado inequívoco: nem ministros, nem burocratas dos escalões inferiores, nem seus familiares estão imunes,” disse Eduardo Bolsonaro em tom de caça às bruxas. Por outro lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou solidariedade aos ministros do STF que também tiveram vistos revogados, chamando a ação americana de “arbitrária e sem fundamento”. “A interferência de um país no sistema de Justiça de outro é inaceitável e fere os princípios básicos do respeito e da soberania entre as nações,” afirmou Lula.
A escalada mostra que a direita internacional e suas ramificações locais não se satisfazem com golpes e desmonte: agora atacam cooperação médica e políticas de Estado. Não é coincidência que essa mesma turma celebre revogações de vistos enquanto ataca estatais e a ideia de serviços públicos fortes.
Se há algo a aprender aqui é que a luta pela soberania, pelo SUS e por parcerias solidárias será cada vez mais confrontada por interesses geopolíticos e por uma direita que não mede esforços para priorizar lucro e influência. Defender o Mais Médicos é defender a vida — e também resistir ao imperialismo que quer ditar quem pode ajudar quem no mundo. A tarefa segue: fortalecer o Estado, proteger nossos programas sociais e transformar essas ofensivas em combustível para ampliar a mobilização popular contra entreguistas e golpistas internacionais.