luta socialista

Semana decisiva: Lula equilibra crítica ao tarifaço dos EUA e julgamento de Bolsonaro para evitar novas sanções

A iminência do julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal e a espada de Damocles representada pelo tarifaço imposto pelos EUA colocam o governo Lula numa encruzilhada: como criticar com firmeza a sanção comercial e a intromissão estrangeira sem oferecer a Donald Trump — e à extrema-direita internacional — munição para novas retaliações? A resposta oficial é prudência estratégica, sobretudo às vésperas da cúpula virtual dos Brics na segunda-feira (8), mas a esquerda tem o dever de não se calar diante da chantagem imperialista.

Jogo diplomático e risco de sanções

Há um mês os EUA aplicaram uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, numa medida que beira o absurdo: um país que precisa dialogar sobre comércio se vê chantageado por interesses geopolíticos. Trump condicionou o fim do “tarifaço” ao encerramento dos processos contra Bolsonaro — uma exigência que, na visão de Lula e do governo, é uma inaceitável interferência na soberania nacional. O efeito prático foi imediato: negociações comerciais esfriaram, empresários brasileiros que foram aos EUA ouviram da parte americana sinais claros de que o tema não era meramente técnico, mas político.

O entorno presidencial, consciente do cenário, optou por um tom calibrado na fala que será adotada durante o Brics. A ideia é defender a soberania e o multilateralismo, condenar a política de tarifas punitivas e, ao mesmo tempo, não apontar o dedo para Trump de forma direta — para evitar oferecer pretextos a sanções adicionais. Uma mistura de firmeza e cautela: necessária em termos diplomáticos, frustrante em termos de combate à chantagem imperialista.

Não podemos aceitar que os interesses geopolíticos de Washington determinem o destino dos nossos processos judiciais. Ainda assim, a política real exige que Lula minimize riscos imediatos para o país — sobretudo porque o julgamento de Bolsonaro será retomado na terça-feira (9), com os votos da Primeira Turma do STF, e há um temor concreto de que uma condenação do ex-capitão seja usada pelos EUA como justificativa para novas medidas punitivas.

Entre os cenários discutidos no Planalto está a possibilidade de sanções direcionadas a autoridades brasileiras, mais simbólicas e políticas do que capazes de romper cadeias produtivas de modo imediato. Mesmo assim, a ameaça é séria: a direita global aprende rápido, e usa essas sanções como instrumentos de pressão e de recuo de governos que se opõem aos seus interesses.

A esquerda precisa, portanto, de duas ações simultâneas: pressionar diplomaticamente contra a chantagem e, ao mesmo tempo, fortalecer uma frente interna que rompa com a agenda neoliberal que submete o país a capitais estrangeiros e interesses privados. O Brasil não pode se curvar perante bilionários de direita nem aceitar que decisões soberanas sejam barganhadas por tarifas e ameaças. Lula e o PT, além de figuras institucionais, devem assumir o papel de articular essa resistência democrática — sem medo de enfrentar a mídia oligárquica nem as redes de influência que patrocinam o bolsonarismo.

A conjuntura exige também mobilização política. Recentemente Lula pediu a apoiadores que se organizem contra propostas de anistia às lideranças da tentativa de golpe — sinalizadora de que a disputa não é apenas jurídica, mas política e social. Mobilizar é necessário para defender instituições, proteger processos democráticos e empurrar o país para uma agenda popular que confronte privatizações e o poder concentrado do capital.

Ao mesmo tempo, a participação do Brasil no Brics precisa ser usada como palanque para a defesa do multilateralismo e da soberania dos povos, sem cair na armadilha de um confronto direto que só favoreceria a extrema-direita e seus padrinhos internacionais. Em outras palavras: firmeza diplomática, coragem política e organização social.

O desafio é grande, mas não imbatível. Se a esquerda souber transformar essa encruzilhada em oportunidade de unidade e mobilização, podemos não apenas rebater a chantagem externa, mas acelerar um projeto popular que enfrente as raízes do poder econômico no país. O jogo está claro — cabe à militância decidir se fica nas arquibancadas ou entra em campo. Quem vai ficar parado? Quem vai lutar?

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