O aumento de tarifas imposto por Donald Trump sobre uma larga lista de produtos brasileiros — de café e carnes a frutas, peixes e máquinas — não é um fato isolado: é mais um capítulo da guerra econômica que empresas e governos dos Estados Unidos travam contra quem ousa disputar mercados. Aqui, porém, esse choque externo tem um efeito curiosamente contraditório no curto prazo: pode reduzir preços de alguns alimentos no mercado interno em 2025, ao mesmo tempo em que lança sombras sobre 2026. O problema é que a decisão vem de cima — e o povo comum volta a pagar a conta, enquanto bilionários e seus lobbies aplaudem no conforto de seus iates.
Cenário para 2025
A lógica é simples e brutal: se uma parte da produção que ia para os EUA não encontra outro destino externo, sobra mais oferta doméstica. Isso pressiona para baixo os preços, especialmente de itens mais dependentes do mercado americano. Frutas como manga e uva já mostram queda; tilápia e outros peixes seguem a mesma trilha, assim como alguns hortifrutis e ovos. Ao mesmo tempo, produtos cujos exportadores conseguem abrir novos mercados — pense em café e carnes — podem sofrer menos impacto.
“A questão de frutas e peixes, esses sim vão tentar colocar o máximo no mercado doméstico e a gente já vê relatos de preços menores. Isso realmente a gente deve sentir. Ovos também devem ficar um pouco mais baratos”, disse Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.
“Fora isso o comportamento de alimentos in natura seguem jogando o índice para baixo e deve continuar assim uma vez que ainda não está computado a sobre oferta de alimentos derivada do tarifaço de Trump”, avaliou o economista André Perfeito ao comentar o IPCA de julho.
Marcelo Boragini, da Davos Investimentos, também espera um efeito deflacionário, mas discreto: “Eu acho que um efeito deflacionário aqui no Brasil, sim, é esperado… mas um impacto bem pequeno.” Traduzindo: alguns centésimos de ponto percentual a menos na inflação — um alívio para quem perde pouco e ganha pouco, e nada para quem quer manter lucros extraordinários.
Não custa lembrar: enquanto famílias comemoram frutas mais baratas, o governo federal, liderado por Lula e pelo PT, foi forçado a anunciar um plano de socorro a empresas atingidas pelo tarifaço — uma medida necessária, que o nosso campo defende como defesa da produção nacional e das estatais, contra a chantagem externa e contra a direita que prefere privatizar tudo.
A incógnita de 2026
O problema é que os efeitos podem ser temporários. Se produtores sofrerem prejuízos e cortarem produção no ano seguinte, a oferta diminui e os preços podem até subir mais do que se esperava. “Às vezes o produtor… o prejuízo desse ano seja suficiente para que ele no ano que vem ainda assim segure tanto o pé no freio, que aconteça o contrário, os preços subam mais do que o imaginado porque se plantou menos”, alertou novamente Gustavo Cruz.
“Neste curto prazo a tendência é de redução na pressão inflacionária, porém, não é possível dizer que esse efeito permanecerá”, disse Juliana Daitx, da Unicred Porto Alegre, lembrando que produtores buscarão novos destinos e ajustarão produção.
Controle da inflação e autoridade do Banco Central
O Banco Central, com a Selic hoje em 15% ao ano — o maior nível em quase 20 anos — tem a tarefa de segurar a inflação. A instituição olha para frente e calibra juros com horizonte de até 18 meses; por isso, toda alteração hoje só tem efeito pleno no médio prazo. Se a inflação recuar consistentemente, o BC poderá começar a reduzir juros; se subir, manterá a taxa elevada para conter pressões inflacionárias.
Alguns economistas veem espaço para cortes já em 2025-2026 se a deflação de alimentos se confirmar e persistir; outros, como Boragini, consideram isso pouco provável no cenário atual. “Tudo pode acontecer sem dúvida nenhuma, mas… eu acho pouco provável isso acontecer [corte de juros ainda em 2025]”, concluiu ele.
O ataque tarifário de Trump nos empurra para duas certezas: primeiro, que as disputas geopolíticas e econômicas se traduzem em sofrimento e incerteza para o povo; segundo, que precisamos de um Estado forte, estatais e políticas industriais capazes de proteger emprego, produção e soberania. Lula e o PT, ao responderem com socorro e medidas, mostram que é possível enfrentar o “tarifaço” com política pública e solidariedade — enquanto a direita só sabe bater palmas para os bilionários estrangeiros. O debate agora é se vamos transformar esse aperto externo em oportunidade para fortalecer uma estratégia popular que coloque comida no prato e indústria no chão, ou se vamos ceder à chantagem do mercado e dos rentistas.